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Como o Bom Pastor cuida de suas ovelhas

Introdução:
A língua sempre foi considerada uma manifestação cultural dinâmica, devido a sua alta capacidade de adequação a um novo contexto de determinada sociedade onde está inserida. Dessa forma, vemos que muitas palavras que anteriormente não faziam parte de nosso vocabulário passaram a integra-lo seja por incorporação de outra língua (estrangeirismo) ou ainda pela criação de um novo vocábulo para atender uma nova necessidade surgida. Exemplos não faltam principalmente no Brasil. Quando chegamos em casa e vamos para o computador geralmente se irá usar um programa chamado Windows para acessar a internet e fazer um download de determinado material necessário para o pendrive. Só aí já se foram quatro palavras acrescidas ao vocábulo brasileiro (português). O interessante é que o dinamismo da língua é tão grande que ela chega a criar determinados vocábulos que podem ser desconhecidos em algumas regiões do mesmo país enquanto são comuns a outras. Há ainda a possibilidade de que grupos específicos na sociedade criem sua própria linguagem e que se comuniquem através dela. Com os evangélicos isso já vem acontecendo há certo tempo.
Existem algumas expressões em nosso meio que vêm sendo utilizadas muitas vezes sem a devida preocupação sobre o seu sentido original. Em algumas igrejas não se cumprimenta o irmão se não pela expressão “a paz do Senhor” retirada das cartas paulinas. Essa pequena frase é dita de forma tão despropositada que o seu sentido original perdeu-se há tempo. Paulo tinha por hábito começar suas cartas com essa frase não por ser costume entre os irmãos se cumprimentarem dessa forma, mas sim pela questão doutrinária referente a forma com a qual a obra salvífica de Cristo havia sido desenvolvida naquela comunidade, primeiro restaurando a paz entre Deus e o homem (Rm. 5) através da graça de Deus derramada sobre os seus eleitos (Ef. 2:8). Portanto, usar essa frase de forma despretensiosa pode gerar um esvaziamento de sentido que em nada será aproveitável para a igreja.
Esse é apenas um exemplo clássico, mas o que dizer por exemplo de algumas passagens bíblicas lançadas como palavras de ordem, tais como: Tudo posso naquele que me fortalece (Fl. 4:13), Em Cristo eu sou mais que vencedor (Rm. 8:37), mas não poderíamos deixar de lado o clássico dos clássicos: O Senhor é o meu Pastor e nada me faltará.
Sem sombra de dúvidas esse é o versículo mais usado por crentes e descrentes na hora do aperto. A facilidade de se esquecer daqueles textos duros como: “se alguém quer seguir-me negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16:24) é enorme, à medida que é praticamente instantânea a citação daqueles outros. Pensando nisso, já venho estudando o texto do Salmo 23 certo que seria um trecho extremamente rico para a edificação da igreja e para desmitificar sobre quem realmente pode pronunciar essa frase, de quem se trata esse pastor, e qual a mensagem que o texto tem para igreja hoje. Por isso, a partir de agora estaremos analisando o texto dos Salmos para chegarmos a tais conclusões.


Elucidação:
Estamos diante de um dos mais belos textos das Escrituras escrito pelo salmista e rei Davi. Esse homem considerado pelo próprio Deus um homem segundo o seu coração, ou seja, aquele que vivia conforme o coração de Deus. Nessa passagem, Davi nos traz um belíssimo testemunho do cuidado divino sobre sua vida. É certo que só se pode testemunhar de alguém quando se há um relacionamento estreito e duradouro com tal pessoa, e isso realmente vemos em Davi. Ora esse homem era mais um dentre os filhos de Jessé o qual foi procurado pelo profeta Samuel que buscava ungir o rei conforme o Senhor lhe mandara. Na ocasião Davi era o único que não estava em casa justamente pela atividade que exercia. Davi era um pastor de ovelhas (I Sm. 16). Esse homem foi o escolhido por Deus para ser o rei mais marcante da história de Israel. E ser rei era algo semelhante a ser pastor de ovelhas. Em Israel o rei era considerado o pastor do povo e isso Davi sabia ser de uma forma maestral.
Entretanto, não podemos esquecer que mesmo sendo esse homem exemplar Davi continuava sendo um homem falho como qualquer outro. Prova disso é o pecado que cometeu com Bate-Seba, e assim sendo, ele precisava de alguém que cuidasse de sua vida. O salmista analisa essa situação e chega a uma maravilhosa conclusão “o Senhor é o meu Pastor”. Ele percebe tudo o que lhe acontecera, todas as lutas que passara desde o dia do seu chamado até aquele momento onde toda a glória e responsabilidade estava sobre ele, quando então projeta duas imagens que ilustram o cuidado do Senhor sobre a sua vida, Deus era o seu Pastor (1-4) e seu Amigo (5,6). Devido ao tempo reduzido que temos para expor quão maravilhosas conclusões do salmista, irei apresentar a primeira imagem neste sermão evidenciando a figura de Deus como o Pastor de Davi (v. 1-4) e posteriormente no próximo Domingo estarei expondo os outros dois versículos (v. 5,6) enfatizando a figura de Deus como o Amigo de Davi.
Logo no primeiro versículo nos deparamos com algumas informações maravilhosas registradas pelo salmista. Ele usa o pronome pessoal de Deus, o SENHOR, no tetragrama hebraico, para evidenciar de forma contundente de quem ele estava falando. Embora muitos povos tivessem se inclinado a deuses falsos como seus pastores, Davi declara quem era o seu verdadeiro Pastor. O uso do pronome pessoal “meu” indica a pessoalidade com que Davi tratava o seu Pastor. Não era o pastor geral de todos, Davi se identifica como ovelha do verdadeiro pastor. Enquanto muitos se corrompiam com outros deuses, Davi seguia firme com o seu Pastor. Igualmente, há uma constatação seríssima sobre esse primeiro versículo, Deus não era o pastor de todos (cf. Ez 34:11-31). Como já vimos, povos pagãos tinham outros deuses que suspostamente eram seus guardadores, algo muito parecido com o que ocorre hoje, pois muitas pessoas tem rejeitado o Deus vivo e O trocado por deuses pagãos. Ora, o grande problema está instalado quando chegamos ao seguinte questionamento: se Deus não tem sido o Pastor de todos, mas apenas de alguns, quem tem regido a vida dos demais?
Essa é uma pergunta intrigante que só pode ser respondida de forma contundente: Se Deus não tem sido o seu Pastor, ou seja, aquele que rege sua vida, alguém está a regendo mesmo que você não saiba. Martinho Lutero já dizia que o homem é um cavalo que ou está sendo guiado por Deus ou pelo Diabo. Lutero não inventou isso de sua cabeça, apenas demonstrou com uma ilustração aquilo que a Bíblia afirma através do próprio Jesus na sua oração sacerdotal (Jo. 17:12-15). Aqueles que não estão sendo guardados por Deus tem sido levados pelo Diabo e não poderia haver guia pior do que esse, pois os seus caminhos os levaram ao inferno. Quanto a Davi, ele proclama, “o Senhor é o meu pastor”. Não havia dúvidas nessa constatação. Davi resume nessa frase o seu relacionamento com Deus que era pessoal e submisso. Apenas nesse primeiro versículo Davi mostra a grandeza daquele que o havia chamado para servi-lo, e o tamanho da sua submissão sob ele. Não haveria possibilidade disso se inverter, Davi era a ovelha do grande Pastor de Israel, e fundamentado nisso ele descreve de forma sublime seu relacionamento com o Senhor, evidenciando algumas características marcantes de como o Bom Pastor cuida de sua ovelha:
1. O Bom Pastor jamais deixará a ovelha sozinha (v.1)
É verdade que na tradução nós temos uma percepção equivocada. Parece que quando o Senhor é o nosso pastor nada poderá faltar em nossas vidas. Mas será que é isso mesmo que acontece? Será que alguém pode ser essa testemunha do suprimento total de Deus em tudo que lhe foi necessário? Será que não houve um só dia de sofrimento em nossas vidas que nos fez duvidar desse versículo? Ou será que a Bíblia falhou em dizer isso?
De forma alguma. A palavra traduzida por “nada” na verdade tem um outro significado, que inclusive é bem mais comum, o qual seria “não”. Assim sendo, teríamos uma nova possibilidade de tradução “O SENHOR é meu Pastor e não me faltará”, qual a diferença que temos agora? Ora, não incorreríamos mais em pensar que essa afirmação não é verdadeira. Conversando com o Ms. em Hebraico o Prof. Humberto de Freitas ele me afirmou uma possibilidade de tradução ainda mais literal do texto “O Senhor é meu pastor e ainda que me falte não sentirei falta”. O pastor de Davi não havia lhe prometido que nada lhe faltaria, mas a promessa era muito superior, ele próprio jamais se apartaria da vida de sua ovelha. Davi seria pastoreado pelo SENHOR todos os dias de sua vida. Isso é muito mais coerente com o verso 4 que fala sobre a possibilidade de andar por caminhos de morte o qual trataremos mais a frente. No verso 1 nós vemos que teologia e prática sendo expostas, Davi diz: O Senhor é meu Pastor (teologia) não me faltará (prática).
Aplicação: O nosso Pastor que é o mesmo de Davi, pode ser chamado de Bom Pastor não porque não nos deixa faltar nada que queremos, mas porque não nos deixa sozinhos. Ele não nos lançou nesse mundo e disse: “Agora é com vocês”. Não, o Senhor tem cuidado de nós, e promete que ficará conosco sempre. Isso é muito melhor do que todas as bênçãos materiais que possamos alcançar, Ele é o nosso pastor e jamais se ausentará de nossas vidas. Veja o que Davi diz no verso 4 que está intimamente ligado com essa afirmação. Ele afirma que seria possível passar por situações muito difíceis, mas o que lhe dava confiança era porque “o Senhor está comigo”. O que concluímos com esse versículo o aplicando diretamente em nossas vidas é que mesmo que todas as situações sejam adversas (ainda que percamos casa, carros, empregos, amigos, etc.) mesmo assim nada disso nos levará ao desespero porque existe algo muito superior a todas essas coisas e esse algo é a presença do Senhor que segundo o salmista jamais abandonará a ovelha. Portanto, certamente seremos abalados por muitas dificuldades, mas o nosso Pastor estar conosco e por isso não iremos sentir falta de nada. Louvemos a Ele pela sua presença!
1. O Bom Pastor providencia o sustento das ovelhas (v.2)
A ovelha é um animal com características singulares. Elas são mudas, indefesas, não tem noção de direção, ou seja, são totalmente dependentes do seu Pastor. Se soltarmos uma ovelha pelo caminho jamais ela voltará para seu aprisco, pois, diferentemente de outros animais, o seu senso de localização é nulo.
Quando Davi afirma que o seu pastor o levava para pastos verdejantes ele apresenta o grau de dependência que a ovelha tem do pastor. Davi testemunhava afirmando que ele guiava pelo caminho que o levaria aos pastos verdejantes. Como ovelha ele não sabia para onde estava indo, mas agindo com confiança aguardava a direção que o pastor lhe indicava. Assim foi também com Abraão que sem saber especificamente para onde ia, confiou na promessa e deixou sua terra em busca do lugar onde seu pastor o levaria (Gn 12).
Mas o que vem a ser esses tais pastos verdejantes? Davi nos mostra como o seu Pastor era cuidadoso. Uma ovelha precisa de pasto e água e é justamente isso que o Pastor de Davi o fornecia. A qualidade do alimento era o melhor possível, não era um pasto seco e sem vida, mas verdejante, era uma comida saudável para a sua ovelha. Por conseguinte, a água que o pastor providenciava não era turva e cheia de correntezas que trariam perigo para as ovelhas, mas eram calmas e tranquilas. A imagem pintada por Davi para o lugar no qual ele seguia guiado pelo Pastor é a imagem de um local de descanso aonde haveria toda a providência do Senhor para o seu rebanho. Diferentemente do mercenário o bom Pastor não almejava o lucro a ser obtido através das suas ovelhas, mas procura dar o melhor para o seu rebanho a fim de cuidar daquilo que é seu com todo carinho.
Aplicação: Assim como o Senhor fez com Davi ele faz com suas ovelhas hoje. Certamente muitas vezes não entendemos os caminhos que nos levam a esses pastos verdejantes e a águas tranquilas, mas a ovelha que confia no pastor descansa nele e segue o caminho indicado, pois sabe que o caminho que está seguindo é seguro. Além disso, a ovelha tem ciência que sozinha não chegará a lugar nenhum e certamente morreria de fome por mais que lutasse para encontrar alimento, pois o que lhe falta é capacidade de encontra-lo. Assim sendo, não podemos impor o caminho a ser usado pelo Senhor para alcançarmos os pastos verdejantes e águas tranquilas, mas como ovelhas seguiremos os seus passos confiantes que o caminho que ele nos leva é o único caminho possível para nossas vidas, e que inevitavelmente esse caminho nos levará aos pastos verdejantes e águas tranquilas, pois essa é a vontade do nosso Supremo Pastor e certamente ele será feita.
2. O Bom Pastor trata a ovelha (v.3,4)
O Bom Pastor não é aquele apenas que promete estar sempre ao lado da ovelha e guia-la por um caminho que a levará para um local de descanso e providencia. A ovelha precisa de mais do que isso, ela precisa ser tratada pelo seu pastor para que tenha condição de seguir pelo caminho. Dessa forma, Davi apresenta a maneira como o seu Pastor vinha tratando dele como ovelha a fim de lhe guiar ao longo de sua vida. Nos versos 3 e 4 veremos o que Davi fala sobre esse tratamento que o Senhor dispensava a suas ovelhas.
v.3 A forma traduzida para a maioria das Bíblias em português da primeira palavra desse verso, acaba nos dando a entender que o Senhor apenas dá um conforto a alma da ovelha, “refrigera minha alma”, parece uma bela oportunidade para quem quer falar de um pastor mais brando, que apenas afaga sua ovelha, mas nem de longe é isso que Davi está dizendo. A palavra traduzida por “refrigera” pode ter um sentido bem diferente a esse primeiramente evidenciado, e nos parece bem certo que assim o seja. Davi estava afirmando que o seu Pastor tratava da ovelha e que tal tratamento era inicialmente restaurador, “restaura a minha alma”. Essa imagem trazida pelo texto nos leva a crer que Davi tinha a percepção parecida com a de Isaias em 49:5 e 60:1 onde o Senhor reunia novamente o seu povo o restaurando a comunhão consigo mesmo através do arrependimento ou ainda conversão. Davi está afirmando que o Senhor o havia restaurado totalmente, sentido este evidenciado pela expressão “minha alma”, Ele o fez arrepender-se dos seus pecados, converte-se ao caminho do Senhor, voltar a andar em conformidade com a lei do Senhor, o que está claro quando Davi fala sobre as tais veredas da justiça. A expressão “minha alma” denota a integralidade da restauração feita por Deus em Davi. Ele não havia sido parcialmente restaurado, não havia uma só área de sua vida que o seu Pastor não houvesse cuidado, era um novo homem completamente renovado para o louvor da glória do próprio Pastor.
O Senhor havia restaurado a sua ovelha para que ela andasse conforme sua lei, mas por que o Pastor havia feito isso, será que havia algo de bom na ovelha? Será que a ovelha contribuíra com algo? Não, de forma alguma! Davi completa dizendo que o grande motivador de todo esse tratamento foi o amor que o Pastor tem pelo seu próprio nome. Deus tem zelo pelo seu caráter, é isso que Davi queria dizer. Sendo Deus misericordioso com suas ovelhas, ele jamais as deixaria andar sozinhas pelo caminho a fora, mas prontamente ele está sempre ao seu lado, providencia todo o necessário e trata dela e dos seus erros pelo amor que tem a si próprio. O rebanho do Senhor jamais poderá andar desordenadamente. O nosso Pastor não quer nos levar a pastos verdejantes de qualquer forma, ele restaura nossa alma, nossa completude, para que andemos nas veredas da justiça, conforme suas leis e seus estatutos, ou seja, suas ovelhas estão sempre sendo guiadas de forma ordeira na direção que melhor parece ao seu pastor.
No verso 4, como já vimos anteriormente, chegamos a uma possibilidade dura de ser aceita. Como o bom Pastor poderia permitir que as suas ovelhas passassem por um vale tão sombrio que se assemelhava a um lugar de morte? Lembremos que o bom Pastor está tratando de suas ovelhas, ele não apenas as restaura, mas faz com que andem pelo seus caminhos, que ora podem parecer mais prazerosos, ora mais íngremes e difíceis. Davi tinha tanta confiança no seu Pastor que chega a essa assustadora conclusão: mesmo que ele me faça passar por um lugar tão sombrio que eu possa enxergar a morte bem de perto, mesmo assim eu não temerei. Só pode dizer isso quem confia no seu pastor e sabe que está sendo tratado por ele. Essa afirmação de Davi retira os espinhos de nossas provações, pois nos faz entender que não se trata do fim, mas sim de um tratamento que o Bom Pastor está administrando sobre o seu rebanho.
Davi fecha essa primeira ilustração do cuidado de Deus com a sua vida através da imagem do Pastor, afirmando que em todo esse tratamento só haveria um motivo para que ele não entrasse em desespero pelo temor do fim. Ele se apega novamente na presença de Deus. Davi sabia que o caminho que estava percorrendo necessariamente desembocaria num local de descanso ilustrado com os pastos verdes e as águas tranquilas, ele também estava ciente da obra que Deus havia feito restaurando a sua alma e o fazendo andar por caminhos retos, não por nenhum mérito próprio, mas pelo caráter perfeito do seu Pastor. Portanto, não seria o vale da sombra da morte que o faria temer. Davi lembra-se dos instrumentos que utilizava quando guiava as ovelhas de seu pai e fazendo uma ligação com a metáfora ora utilizada, ele diz que não poderia temer, pois a presença do pastor com a ovelha garantia segurança contra os lobos e contra a sua própria fragilidade.
A vara era um instrumento usado geralmente com uma ponta de metal para afugentar os lobos, leões, ursos e todo o tipo de inimigos que pudessem investir contra o rebanho, ao tempo que o cajado, segundo Matthew Henry, era um instrumento distinto da vara, usado para resgatar a ovelha quando caia em algum precipício, podendo içá-las. Com essa imagem, Davi mostra a segurança que tinha em caminhar conforme mandava o seu Pastor, pois não haveria nenhum motivo para temor seja lá qual fosse o caminho a seguir.
Aplicação: Se o Senhor nos deixasse andar conforme nossos próprios conceitos e seguindo nossos próprios caminhos certamente nós nos atiraríamos no primeiro precipício ou ainda seríamos engolidos por lobos. Mas sendo ele o nosso guia, certamente estaremos protegidos tanto das investidas de Satanás querendo nos consumir, como da nossa própria fragilidade que nos faz querer desviar dos seus caminhos. Ele não apenas nos guia e providencia todo o necessário, mas não nos permite sair do caminho por ele traçado. Não poderíamos ansiar por segurança maior.
Mas não seria possível terminarmos a proclamação dessas verdades sem citar a revelação desse Bom Pastor na Nova Aliança. O Senhor Jesus em João capítulo 10 se identifica como o Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas (Jo. 10:11). Ele promete jamais as deixar sozinhas (Mt. 28: 20) e através do seu sangue ele nos restaura a alma e nos guia para os pastos verdejantes (Jo. 10:9) e mesmo que no caminho passemos pelo vale da sombra da morte não temeremos mal algum pois ele venceu a morte. Na Cruz do Calvário o bom Pastor fez algo que o mercenário jamais faria, ele deu a sua vida pelas suas ovelhas. Isso já seria maravilhoso se considerássemos ovelhas inocentes e indefesas, mas quando sabemos que as suas ovelhas são pessoas como eu e você a obra de Cristo se torna ainda mais sublime. O Deus Todo Poderoso envia seu Filho a Terra para apascentar um rebanho rebelde e desobediente e por esse rebanho de ovelhas pecadoras o Senhor Jesus Cristo, o Bom Pastor, ora pedindo que seu pai os guarde e os livre do mal e para garantir que esse rebanho de rebeldes não volte a se rebelar contra o seu Pastor, Jesus dá sua vida e com isso compra o resgate de suas ovelhas.
Aplicações Finais:
Quanto aqueles que ainda não têm a Deus como o seu Pastor, a conclusão que chegamos que essas pessoas devem buscar a sua misericórdia imediatamente para que sejam pastoreadas e libertas da mão do mercenário que quer acabar com suas vidas.
Todavia, em relação àqueles que já tem o Senhor como o seu Pastor que possam aprender a confiar mais no agir do Senhor que é o nosso Pastor que sempre os acompanha e jamais deixará suas ovelhas sozinhas. Que cada um de nós possa estar sempre com o coração aguardando na promessa dos pastos verdejantes e das águas tranquilas, mesmo quando o caminho mais pareça de morte, pois o Pastor irá nos tratar até que cheguemos ao lugar onde é o seu propósito. Que possamos descansar na confiança que o nosso Pastor tem usado da sua vara para afugentar os lobos e do seu cajado para não permitir que saiamos dos seus caminhos. Que possamos nos assegurar nos méritos de Cristo que já pagou o preço pelo seu rebanho e que jamais os deixará sozinho.


Presb. Augusto Brayner



Gênesis 24 - O Casamento no Senhor


Introdução:

            Na última sexta feira completou uma semana que o capítulo final da novela Insensato Coração da Rede Globo de Televisão foi ao ar. Os autores desse folhetim, Gilberto Braga e Ricardo Linhares, foram muito felizes na colocação do título. Não poderiam ser mais sensatos quando tiveram a ideia de intitular a novela com este nome.

            A palavra insensato é o mesmo que tolo, e só o que se via na novela era a tolice humana exibida ao extremo. Isso foi trabalhado de forma mais evidente nos casais que se formaram. Vou citar apenas três deles e comentar um pouco sobre a forma com os quais foram desenvolvidos na novela:

            Horácio Cortez e Natali: Esse casal iniciou seu relacionamento ainda quando o personagem do banqueiro estava casado. Ele acaba matando sua esposa e se casa com Natali, personagem de Débora Secco. Passado algum tempo o banqueiro é preso e sua nova esposa rouba parte do seu dinheiro para gastar com sua compulsão por compras.      



Douglas e Bibi: Esse relacionamento conturbado é baseado no amor do homem que deseja se casar, mas que tem que enfrentar a resistência de sua amada que nem pensa em compromisso. A personagem Bibi é uma socialite do Rio de Janeiro que só pensa em curtir a vida e nem imagina ficar “presa” a alguém. O que acaba acontecendo no final.




            Eduardo e Hugo: Como não poderia ser diferente a Rede Globo além de promover a apologia ao homossexualismo vendendo uma falsa imagem de que essa é a classe mais perseguida do mundo, ainda apresenta esse casal como algo extremamente normal e correto que não pode ser questionado por ninguém.


Esses três casais seriam apenas o retrato de uma sociedade corrompida que jaz no maligno e que tem na inversão de valores o seu maior trunfo. Vemos a promiscuidade, avareza, torpeza todas livremente exibidas na televisão porque são reflexo do que vemos no nosso dia-a-dia. Nesse ponto a Rede Globo não está inventando absolutamente nada. Tudo que aconteceu na novela também acontece na sociedade em que vivemos. Todavia, o que nos dá tranquilidade é que sabemos que essas coisas só acontecem fora da igreja. Aqui não temos esse tipo de problema. Entre os membros das igrejas cristãs isso nem se cogita. Será mesmo?

            Recentemente foi divulgada uma pesquisa realizada pela instituição BEPEC (Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã) no portal apologético Genizah e em outros sites que teve como alvo os evangélicos brasileiros. Nessa pesquisa foram abordadas dentre outros temas como: homossexualismo, pornografia, traição e divórcio entre os crentes. Mais de 12 mil pessoas foram entrevistadas em todo o Brasil, membros de diferentes denominações (tradicionais, pentecostais e neopentecostais) e os números obtidos não foram nada animadores.

            Segundo a pesquisa cerca de 44,5% dos entrevistados dizem ter mantido algum tipo de ligação com pornografia,  24,68% dos homens admitem que já adulteraram e 12% das mulheres também responderam positivamente a essa pergunta. Ao final da pesquisa alguns pastores foram confrontados com os resultados e dizem não estar surpresos, pois o estilo liberal que os membros evangélicos têm vivido está sendo atestado na pesquisa.

            Outra constatação é que esses números não são em muito diferentes de pesquisas semelhantes a essa feitas pelo Ministério da Saúde que tentava avaliar o risco das doenças sexualmente transmissíveis.

            O grande questionamento que fazemos é: Atualmente, qual a diferença de um casamento cristão para uma união de pessoas que não professam a crença ao Senhor Jesus? Ou melhor, qual o padrão de casamento dado na Bíblia e que evidentemente não tem sido seguido.
           
Nesses termos, hoje estarei expondo sobre: Os fundamentos bíblicos de um lar abençoado.

Elucidação:

            O texto registrado por Moisés narra a história da escolha da noiva de Isaque. Essa temática se inicia quando o pai de Isaque, Abraão, passando por uma das piores experiências de sua vida devido a morte de sua esposa Sara, resolve buscar uma mulher para seu filho que estava profundamente abatido pela perda da mãe. Nessa época era comum os pais decidirem com quem seus filhos deveriam casar. Segundo o livro Instituições de Israel, os pais davam sempre preferencia a mulheres de sua própria família, e muitos primos já sabiam durante todos os primeiros anos de sua vida, qual seria a mulher com quem casaria. Apesar de ser uma prática oriental, isso também chegou a acontecer no Ocidente há muitos anos atrás, mas perdeu força e hoje não temos mais esse tipo de prática em nossos dias (para o alívio de muitos). Mas o que nos chama a atenção nesse texto é que a tomada pela esposa não era feita sem critérios. No caso de Abraão um homem com idade bastante avançada ainda estava firme a aliança com Deus (v.1), ele não busca uma mulher apenas de sua família, como um bom pai, Abraão buscava mais algumas características primordiais para que o relacionamento do seu filho fosse abençoado e que tivesse bases sólidas, pois seria ele quem levaria adiante a promessa de benção sobre todas as famílias da Terra, e por isso seria extremamente necessário que a esposa estivesse dentro de um padrão válido para uma família sadia.

            No verso 2 Abraão chama o mais antigo dos seus servos, aquele em que ele mais depositava confiança para ser o responsável para trazer essa mulher ao encontro do seu filho. A missão era extremamente séria e por isso mesmo se faria necessário um juramento solene de seu servo. Assim sendo, Abraão manda o servo por a mão por baixo de sua coxa, expressão que está ligada diretamente a procriação, ao símbolo da aliança entre Deus e Abraão, ele não poderia fazer juramento por algo mais solene, e logo em seguida vemos a primeira base para a construção de um casamento solido.
1.    
 Baseado na mesma fé (v.2-8)

Essa é uma tônica não só do Antigo Testamento, mas também do Novo. Deus jamais aconselhara ao seu povo se casar com alguém de fora da aliança. Isso era tão grave que o Senhor incluiu essa proibição na lei em Dt 7:3,4 há uma proibição do relacionamento com pessoas que não eram israelitas, e a consequência desse erro era que tais relacionamentos levariam o povo a se desviar de Deus (como realmente aconteceu em diversas ocasiões, e perdura até nossos dias) e isso acenderia a ira do Senhor sobre o seu povo. Era uma promessa de destruição. Isso se cumpre em I Rs 11:4 na história de Salomão que se desviou do caminho de Deus e em Ed 9 onde o povo havia tomado mulheres de outros povos sendo influenciados por religiões pagãs. Para aqueles que pensam que isso ficou apenas no Antigo Testamento, Paulo ecoa tudo aquilo que Moisés falou na lei e diz em I Co. 7:39 quando trata sobre o casamento o qual deve ser apenas “no Senhor” essa é a mesma expressão utilizada pela Confissão de Fé de nossa igreja quando limita o casamento dos crentes apenas com outros crentes. Temos aqui base bíblica no Antigo, no Novo e ainda na Confissão de Fé de nossa igreja. Mas se há quem duvide ainda disso, basta ver na prática como se desenvolvem esses tipos de casamentos, embora sejam legítimos diante de Deus após a sua confirmação, como o próprio Paulo trata a questão dos recém convertidos casados com ímpios os quais não devem se separar, mas a certeza é que muitas tribulações seguirão durante esse relacionamento. Assim sendo, o primeiro requisito bíblico para um casamento abençoado é casar-se somente no Senhor.

Abraão ainda é questionado pelo seu servo sobre a possibilidade da mulher não querer vir até a Terra de Canaã para viver com Isaque, e se isso ocorresse ele poderia leva-lo até a mulher. Abraão prontamente responde que se isso não deveria acontecer e dá o grande motivo no verso 7, porque o Senhor que me tirou daquela Terra me prometeu que me daria a descendência conforme sua vontade. Abraão confia plenamente no Senhor e por isso não teme que o seu servo pudesse voltar sem a mulher.

Aplicação: A secularização é tão grande hoje em nossas igrejas que esse princípio de relacionamento somente no Senhor foi deixado de lado há muito tempo. Esse problema é grave e tem feito muitos cristãos firmes serem levados para longe dos caminhos do Senhor por causa de sua rebeldia. Abraão, todavia, confiou no Senhor e teve certeza que o Deus que lhe tirara de sua Terra prometendo-lhe uma descendência abençoada iria cumprir sua Palavra cabalmente. O que tem faltado ao povo de Deus é fé nas suas promessas, e sem fé é impossível agradar a Deus. Dessa forma, os crentes têm buscado relacionamentos estranhos a sua fé e criam ao invés de um lar abençoado uma casa onde mais dia menos dia sofrerá as consequências do pecado. Por isso meus irmãos, saibamos que os princípios de Deus não mudam aquilo que Ele estabeleceu não só é a verdade, mas é o melhor caminho para nossas vidas. Creia que Deus te dará uma pessoa conforme a sua vontade e confie que assim será.

            (v. 11) Após a condição ser imposta por Abraão, vemos no verso 9 que o juramento é feito e o servo sai para uma longa jornada até a região norte da Mesopotâmia, mas precisamente para cidade de Naor. Chegando às proximidades da cidade, o servo para os seus camelos perto de um poço onde as mulheres iam tirar água para a família. O horário que ele chega, à tarde, é justamente o período de tempo onde as mulheres se dirigiam ao poço e percebendo ele a oportunidade que tinha naquele lugar ele não pensou em uma boa cantada para a moça, não pensou em escolher a mais bonita, muito menos decidiu usar da riqueza de Abraão para impressionar a primeira que ali chegasse, mas a atitude do servo deve ser mais uma base para um lar verdadeiramente cristão.

2. Baseado em oração (v. 11-14)

            O servo começa a falar com o Senhor e pedir a sua direção. Ele pede a misericórdia de Deus e percebendo a grande oportunidade naquele poço se esvazia de todos os conceitos humanos na hora de escolher a mulher e diz no verso 12: “rogo-te que me acudas, hoje.”

            Aplicação: Não é possível tomarmos decisões sem antes consultar a vontade do Senhor, imaginem se for para escolher com quem casar. Aqui todos os conceitos mundanos são quebrados, para o servo pouco importava como seria o físico da moça ou sua condição financeira, o que ele queria era a direção do alto para não fazer nada errado. Assim precisamos fazer em qualquer decisão de nossas vidas. Não temos em nós mesmos condições de discernirmos o que realmente nos é melhor, por isso, devemos aprender não apenas com o servo de Abraão, mas também com Neemias que antes de dizer o que queria ao Faraó fez uma pequena oração pedindo direção ao Senhor, ou ainda a Davi que por diversas vezes orou a Deus pedindo direção em suas batalhas, e por fim, precisamos imitar o que o Senhor Jesus sempre fez, quando ele mesmo sendo Deus jamais deixou de orar e manter comunhão com o Pai em tudo que iria fazer.

            A estratégia era simples (v.14) ele pediu que a mulher que inclinasse o cântaro para que ele e os camelos bebessem essa seria a que o Senhor havia escolhido. O interessante é que no verso seguinte (v. 15) a Palavra de Deus diz que ele nem termina a oração quando surge uma mulher.

            Aplicação: Nem sempre é assim, mas nossas orações podem ser respondidas antes mesmo que nós pensemos. No caso do servo de Abraão a oração foi imediatamente respondida, mas precisamos saber que caso isso não ocorra conosco, é porque ainda o tempo de Deus irá chegar, o certo é que sempre as nossas orações serão respondidas, nem sempre como queremos, mas serão.

            O que me salta os olhos na continuidade da história é que mesmo o servo não orando para que a moça fosse formosa, vejamos a descrição dada pelo servo: “A moça era formosa de aparência, virgem, a quem nenhum homem havia possuído.” Não poderia ser melhor, além de ser uma mulher segundo a vontade do Senhor ela ainda era formosa e intocada. Que Maravilha!

            Aplicação: Quando confiamos no Senhor ele cumpre o que diz nos dando sempre o melhor. A esperança do homem era de buscar uma mulher conforme o seu senhor lhe mandara, mas Deus resolveu dar mais do que ele pedira. É assim que muitas vezes o Senhor faz conosco, nós confiamos Nele e ele nos surpreende com algo melhor do que pedimos em nossas orações.

            Faltava ainda a confirmação se aquela realmente era a mulher dada por Deus, por isso o servo pede água a ela (v.17) e prontamente lhe é atendido. A moça, todavia, faz tudo de boa vontade, dá água ao moço e volta a tirar água para os camelos (v.19). O que nos leva ao terceiro fundamento de um lar cristão.

3. Baseado em um cuidado mútuo (v. 18 – 22)

            Aquilo que aparentemente era apenas uma estratégia para receber a confirmação de Deus, na verdade foi uma ideia muita sábia do servo, ele queria ver qual era o caráter dessa mulher, precisava evidenciar em atitudes que realmente era uma mulher prestativa e digna de casar-se com o filho do seu senhor. Ele a observa, vê suas reações de pura hospitalidade e tremendamente atordoado com o tamanho da bondade de Deus se revelando naquela mulher. Sua reação é igualmente bela, no momento que ele sente que estava confirmada a vontade de Deus, põe um pendente de ouro e duas pulseiras para as mãos da moça. O que isso nos quer dizer? Não podemos esquecer que o servo aqui estava representando o próprio noivo, e diante disso vemos uma noiva prestativa, cuidando de sua casa e um noivo que pega todo o produto do seu trabalho e traz para casa para sua linda esposa usufruir.      
      
            Aplicação: Que imagem maravilhosa! Um lar abençoado pela mão do Senhor tem uma mulher hospitaleira que tem prazer em servir seu marido, enquanto ele sai de casa e trabalha duro o dia inteiro para trazer para casa o sustento e desfrutar do produto do seu suor com sua esposa. É assim o ideal de Deus para o nosso lar, amor mútuo, cuidado mútuo, cada um dá do seu melhor para ver a felicidade do seu cônjuge. A Bíblia nos incentiva a gozar a vida cuidando sempre de nossa família: Pv 5:18 Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade.

            Diante de tamanha benção o servo ora mais uma vez, agora agradecendo pela providência do Senhor (v.27). Ele acompanha a moça até a sua casa onde o último capítulo dessa história irá se desenrolar. Rebeca provavelmente tinha perdido seu pai, ou então ele já estava muito velho e não tinha mais condições de decidir o que seria melhor para sua filha, pois chegando a casa de Rebeca a recepção é feita pelo seu irmão chamado Labão. Nesse homem encontraremos os princípios mundanos regendo sua vida, pois quando Rebeca começa a explicar tudo o que lhe ocorrera ele vê o pendente de ouro e as pulseiras em sua irmã (v. 30) foi logo encontrar-se com o servo e sem nem ao menos conversar com ele já disse: Entra, bendito do Senhor, por que estás aí fora? (v. 31)

            Aplicação: Essa é uma advertência muito séria aos pais, pois jamais vocês podem analisar a pessoa com a qual seus filhos estão se relacionando a partir da aparência ou condição social. Assim agem os ímpios e não os crentes. Na novela citada na introdução desse sermão havia uma mulher que tentava aconselhar suas duas filhas a se casarem com homens de boas famílias para garantir um bom futuro. Esse é um dos pensamentos mais diabólicos que alguém pode ter e é uma pena que não fique apenas na ficção. Nós estamos cercados por pessoas interesseiras, mas que bom seria se nós crentes nos mantivéssemos longe desse tipo de pensamento, certamente colheríamos ótimos frutos à medida que entregássemos o nosso caminho apenas ao Senhor.

            Mesmo com todo o interesse de Labão o servo de Abraão queria apenas uma última confirmação do responsável por Rebeca, ele precisava do seu consentimento.

4. Baseado em consentimento da família (v. 49-58)

O servo de Abraão não fez nenhum tipo de pressão aos responsáveis pela moça, ele apenas pede a resposta para que ele possa leva-la ou continuar a sua jornada.

Aplicação: Esse é mais um grande problema dos casamentos de nossos dias, falta o consentimento da família. Quando a Bíblia fala que deixará o homem pai e mãe, não quer dizer que os filhos devem se rebelar contra seus pais e saírem de casa, de forma alguma. A Bíblia está apenas evidenciando o caráter único do casamento que é entre duas pessoas que passaram a ser uma dali em diante e que, portanto, saíram da responsabilidade de seus pais. O casamento deve sempre ser realizado com o consentimento das famílias, esse era um padrão do Antigo Testamento, mas serve de princípio para todas as épocas, pois a Palavra do Senhor não fica jamais desatualizada. Portanto, agir de modo diferente é rebelião, e rebelião é pecado comparado à idolatria (I Sm 15:23)

Aqui houve também algo raro para época, a moça é chamada e também consente com o casamento (v. 57,58), ou seja, não há qualquer tipo de resistência, todas as coisas haviam sido preparadas por Deus e por isso, o consentimento era mútuo.

Mas faltava algo. O grande dia ainda não havia chegado. Na verdade, a moça nem conhecia o seu amado ainda. O noivo aguardava sua noiva e resolve vai meditar no campo (v. 63). Incrível, o homem de Deus enquanto aguarda sua noiva continua em oração esperando pela provisão do Senhor até que o grande dia chega. No verso 64 Rebeca levanta os olhos e avista o seu amado, mesmo sem saber ainda quem era, e então pergunta ao servo de quem se tratava. A resposta era a que ela mais esperava, estava ali diante dela o homem pelo qual ela se dedicaria por toda a sua vida. Sua atitude mais uma vez é nobre, o seu noivo ainda não há deveria vê-la e por isso ela cobre-se com o véu, mostrando todo o respeito que tinha por ele. Ela chega à casa do seu amado que de forma amorosa a conduz a tenda onde sua mãe morava e ali a Bíblia diz que o casamento é consumado. Que história maravilhosa!!!

Conclusão:

Pois é meus irmãos, a intenção de trazer essa história hoje para vocês não foi apenas de servir de um aconselhamento para novos casais e de exortação para os já formados, mas toda essa história narra algo muito mais sublime que o relacionamento entre um homem e uma mulher. Estamos diante de uma prefiguração do grande encontro que ocorrerá entre Cristo e a Igreja quando ele vier nos buscar. Nesse dia, ele levará uma noiva santa, pura e fiel, aquela que se dispôs a ser prestativa a ele em tudo que o noivo mandou. Um dia estaremos diante do nosso noivo que assim como Isaque estará nos esperando e nos guiará até a casa do Pai onde moraremos com Ele para sempre.

O relacionamento do homem e da mulher sempre serviu de ilustração do Senhor para o seu relacionamento com a sua igreja, por isso, deve ser tratado com tanta responsabilidade. A necessidade que temos de estabelecermos um relacionamento baseado em fé, oração, cuidado mútuo e consentimento apenas confirma o relacionamento que o Senhor quer conosco. Todas essas características devem estar presentes em nosso relacionamento com nosso cônjuge e consequentemente com Ele.

Assim sendo, devermos sempre primar por relacionamentos feitos no Senhor, para que não sejamos tentados a deixa-lo para seguir a nosso cônjuge, também devemos sempre dedicar um tempo especial a oração pela direção de Deus em nossas vidas, e demonstrar todo o nosso amor pelo outro no dia-a-dia cuidando mutuamente, tendo respeito pela família do outro e seguindo sempre a partir de um consentimento geral. Todavia, para aqueles que ainda não estão esperando pelo Senhor Jesus como seu noivo, saiba que a mesma Bíblia que fala sobre esse encontro triunfal entre Cristo e a Igreja, narra também antecipadamente quando ele virá para julgar e lançar no lago de fogo aqueles que rejeitaram tal grandioso relacionamento. Está posto, para os que aguardam Cristo, perseverem nos fundamentos deixados para seguirmos até o fim, mas para os que ainda não iniciaram esse relacionamento, arrependam-se e peçam perdão e misericórdia a Ele para que pela sua infinita graça o Senhor também lhes conceda quão grande mistério de ser a sua noiva.

E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido. Apocalipse 21:2

 Que Deus abençoe os nossos lares, e nos faça viver de forma antecipada aqui na Terra, as bênçãos muito superiores que ele nos tem reservado na morada eterna.

Presb. Augusto Brayner

O supremo chamado - Isaías capítulo 6


Introdução:
Imagine você um homem de cerca de quarenta anos, nascido em família tradicional de sua terra, filho de um rei (Amoz 1.1 – isso pode explicar o livre acesso que tinha ao palácio), casado (8:1), com pelo menos dois filhos (7:3; 8:3) e certamente cheio de projetos. Imaginou? Pronto, era assim o Isaías tão conhecido da Bíblia. O homem que escreveu o maior livro de profecia do Antigo Testamento que é considerado por muitos estudiosos o quinto evangelho, era um homem comum com todos os anseios e temores que todos nós passamos. Estou tentado a pensar que o grande sonho da vida dele não era exatamente passar quarenta longos anos sendo hostilizado pelas pessoas, tido como um louco para muitos devido à mensagem que pregava. Mas foi justamente isso que Isaias teve que passar. Tudo por conta de um chamado.
Mas aí você pode se questionar: “Tudo bem, ele passou por tudo isso, mas foi chamado por Deus, ele tinha essa obrigação” e muitos podem até dar graças a Deus por não tê-la. Isso em partes é verdade. Nem todos são chamados ao ministério da Palavra, que se confunde com a profecia, mas todos, sem distinção, são chamados por Deus para fazer algo na Terra. Pode ter certeza que Deus jamais colocou alguém nesse planeta sem que tenha sido chamado para algo. Uns foram chamados para serem médicos, outros engenheiros, existem aqueles vocacionados a serem bons motoristas, garis, músicos, enfim, cada um de nós tem um chamado de Deus para algo e muitos já até desempenham este chamado, o que resta saber é se Deus tem um chamado especial para nós e como esse chamado é feito. Viu? Você já começou a se encaixar novamente na história!


Sabendo que todos agora já estão novamente inseridos no ambiente do texto lido, podemos tentar identificar algumas características do chamado feito a Isaías e como esse chamado pode se dar em nossas vidas.
Elucidação:
Isaías viveu no período do reino dividido quando Israel estava sendo devastado pelos Assírios que também invadiram Judá restando apenas a capital Jerusalém. Após usar os primeiros cinco capítulos do livro pregando as primeiras advertências contra o povo mostrando toda a ira de Deus contra a nação de Israel que havia se desvirtuado do seu caminho e que por isso iria sofrer a invasão de povos ímpios, Isaías chega ao capítulo 6 e começa a ser mais pessoal na sua escrita. Ele para e fala um pouco sobre uma experiência que havia passado e que muito lhe marcou, a qual não poderia ficar de fora do seu livro. Isaías muito provavelmente foi criado em lar judeu, ensinado para agir como tal, e é provável que já sentisse o chamado do Senhor para servi-lo antes desse evento, todavia, o capítulo 6 nos traz o relato de um chamado específico para o ministério da profecia (esse período provavelmente se deu entre os anos de 740-680 A.C.) que provavelmente ele já exercia. Ele começa falando sobre a pessoa que lhe chamou para trabalhar, ele apresenta o seu chefe e quais as suas qualidades.
1.       Como Deus se apresentou a Isaías
1.1   O contexto do chamado (v. 1a No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono)


Isaías registra o ano em que aconteceu o seu chamado (muito comum ainda hoje as pessoas decorarem o dia em que foi resgatada por Deus, e o dia que se sentiram vocacionadas por Ele a fazerem determinado trabalho) relatando que havia ocorrido quando o rei Uzias (Azarias) havia morrido. Isaías havia nascido mais ou menos na metade do reinado de Uzias e viu toda a segunda parte do seu reinado até o seu fim. A imagem que o profeta tenta trazer é de um trono vazio. Ora o povo de Israel que tanto havia pedido um rei para governar a sua terra rejeitando o próprio reinado do Senhor, havia experimentado um tempo de considerável prosperidade na época de Uzias, mas com a morte do rei o povo poderia estar muito abalado(o rei foi tratado por vezes nos Salmos como um pastor do povo). O interessante é que o profeta usa dessa possível angustia do povo para lembra-los que aquele rei rejeitado por eles continuava reinando soberanamente. Isaías diz que viu (teofania) o Adonai (Senhor Soberano, aquele que domina sobre todas as coisas e tem poder real sobre elas) em um trono no ano da morte do rei que tanta prosperidade havia trazido para o povo. Não era qualquer trono, a qualificação descrita por Isaías era de um trono alto e sublime o trono em que Deus governa cada um de nossos dias.
Aplicação: A primeira aplicação do texto já está logo na primeira linha, por mais que nós não enxerguemos a ação soberana de Deus, ele está governando nossas vidas. O povo havia passado muitos anos sob a administração de Uzias e pensavam que a prosperidade viria deste rei, todavia, esse rei era um homem limitado e teve seu fim, o que seria agora de Israel? Ora, o Senhor continua assentado no trono, ele governará as nossas vidas, passam os governantes, perdemos empregos, nossos sonhos são esmagados, mas o Senhor continua no seu alto e sublime trono e essa é a maior esperança que podemos ter, Deus sentado governando a nossa história. Aleluia!
1.2 Quem é aquele que chama
v.1b A Glória de Deus
Isaías continua descrevendo o que viu, passando agora a falar sobre aquele ser que o chamara e que estava no trono de sua visão vocacional. Ele relata que as abas das vestes desse rei enchiam todo o templo. Somos levados a crer que o templo falado no versículo não se tratava do templo terreno(cf. FF Bruce), mas sim do templo celestial onde o rei Todo Poderoso decreta suas ordens e governa todas as coisas. Dessa forma, se encher um templo terreno seria impossível para glória de qualquer rei terreno, o Rei que governa todas as coisas e que estava chamando Isaías para uma obra conseguia encher todo o templo celestial apenas com as orla de suas vestes. O Senhor soberano preenche todo o céu com a sua glória. Essa apresentação feita a Isaías tem a intenção de mostrar-lhe quem é aquele que irá lhe chamar para que ele atente sobre o tamanho de sua responsabilidade.
Aplicação: Antes de pensarmos em nos eximir do chamado é muit interessante atentarmos para o poder em glória daquele que nos chamou. A majestade do Senhor é maravilhosamente descrita por Isaías e nos constrange a lamentação frente a nossa parcimônia no que tange a obra posta sob nossa responsabilidade. O rei que nos convoca ao trabalho gere toda a Terra e preenche cada lugar com sua glória, portanto, nossa rebeldia em não atende-Lo jamais poderá ser encoberta, pois ele está em todos os lugares a nos vigiar.
v. 2-4 A sua Santidade
O profeta agora começa a falar sobre alguns seres que ele viu sobre o trono do rei, ele os chama de serafins. Segundo FF Bruce tais seres são similares ao encontrados em Números 21:6, onde a imagem de uma serpente é levantada para curar aqueles que foram picados por cobras. Pois é, para tristeza de muitos que imaginam os serafins daquela forma tradicional com corpo humano e com asas nas costas, a imagem traçada por Isaías é bem diferente. A visão é de serpentes aladas, sim, isso mesmo, cobras com asas! Esses seres demonstram toda a sua reverência diante do rei encobrindo seu rosto para não verem a glória de Deus (a partir de agora pense duas vezes em cantar que quer ver a glória de Deus) e seus pés expressando a condição indigna de estarem diante do rei.
Os serafins repetiam a mesma frase e isso chamou a atenção de Isaías, eles diziam: “Santo, Santo, Santo, toda a Terra está cheia da sua glória”(v.3)(Sinclair B. Ferguson diz que a palavra santo aqui aplicada tem o significado de “cortar”, “separar de” “ser posto a distância”.) O termo utilizado aqui (quadosh) nos traz a mente a apresentação representativa da santidade do Senhor.
Uma outra constatação nessa parte do texto é que não era apenas o templo que havia sido preenchido com a glória de Deus representada pela fumaça? Não, os serafins declaram a onipresença da glória de Deus que preenche tudo, e mais uma vez, agora no verso 4, vemos que o piso do templo celestial tomado pela glória de Deus começa a tremer, evento comum nas narrativas que falam da glória de Deus (imagine se o piso tremia, como estava Isaías?).
 É bom que se diga que a repetição tríplice da palavra “santo” há sim a possibilidade de uma relação com a trindade bendita, mas assim como afirmou Calvino, essa repetição traz a ênfase dada pelos serafins à santidade plena do nosso rei.
2.       A constatação de Isaías quando apresentado diante de Deus (v.5)
Ao contrário do que muitos dizem que diante de Deus da vontade de fazer até umas coisas bem estranhas como pular, correr, gritar, Isaías disse: Estou perdido! Mas que constatação é essa profeta? Sim, alguém quando é apresentado a Santidade do Deus da Bíblia e sabe o quão temível ele é, a única coisa que pode sair de sua boca é isso mesmo, estou perdido! Não dá pra pensar em outra coisa quando tomamos conhecimento de um Deus tão Santo e bom ao tempo em que olhamos para nós mesmos e só enxergamos o pecado. A vontade que dá é sair correndo da presença Dele. Não foi isso que fizeram Adão e Eva? Sim, eles se esconderam porque tiveram ciência do seu pecado e sabiam não poderia mais ficar diante do Senhor sem serem fulminados. O interessante de Isaías é que ao contrário de Adão, ele não se exime da culpa, antes se identifica como pecador no meio de um povo também pecador. Ele estava ciente de sua incapacidade de se achegar a Deus, mas diante da sua santidade em contraste com a depravação do povo da aliança e do próprio Isaías ele se desespera.
Essa atitude é recorrente naqueles que tiveram um verdadeiro encontro com o Senhor. A constatação do profeta é que era totalmente incapaz de fazer algo perante aquele Deus. O verbo utilizado para “estou perdido” se encontra no nifal, voz passiva que indica que o profeta. O significado do verbo é cortar, dessa forma é como ele dissesse que estava sendo cortado. Especificamente Isaías declara sua incapacidade que o levava a não estar pronto a profetizar em nome do Senhor. Ora, alguém que estava sendo vocacionado justamente para proferir palavras vindas do trono da graça se considerava impuro, não só ele, mas toda a nação onde ele vivia. Como Isaías poderia ser usado por Deus como profeta se ele mesmo tinha certeza de seus pecados e de sua incapacidade para tal obra? Isaías se encontrava diante do Deus Todo Poderoso assistindo os anjos O glorificando com toda reverência e temor, enquanto ele estava estatelado a frente do Senhor sem conseguir dizer uma palavra sequer.
Aplicação: Na verdade, essa constatação de incapacidade, ao contrário do que possa parecer, não leva o vocacionado a ser impossibilitado de prestar o serviço ao Senhor. Antes, essa atitude de humildade e arrependimento é condição sine qua non para que o Senhor da obra nos capacite a ela. O arrependimento nos coloca em uma nova posição diante de Deus, pois sabemos que Ele não rejeita um coração contrito e quebrantado e certamente seremos tratados assim como o foi Isaías. Portanto, diante do Deus Todo Poderoso todos nós precisamos nos considerar como impuros e aguardamos que sua graça nos alcance e nos transforme para glória Dele mesmo.
3.       O toque transformador de Deus (v.6,7)
Se existe algo que separa o homem de Deus, e nós sabemos que existe, esse algo é o pecado. Essa é a visão da teontologia de Isaías, um Deus santo que não pode se contaminar com o pecado. No Antigo Testamento a ênfase que sempre é dada a santidade de Deus, muito mais que denotar sua majestade, nos traz o entendimento de um Deus que é separado do mundo pecaminoso, que não se contamina com o mal e que não pode se relacionar com um ser pecador. Não há possibilidade de manter um relacionamento com Deus quando o pecado nos separa. Sabendo disso, o Senhor providenciou a solução. No verso 6, Isaías nos diz que o serafim voa até o altar de Deus e de lá tira uma brasa. Vemos claramente nesta descrição que o altar onde os sacrifícios eram feitos prefigurava a cruz de Cristo de onde realmente essa brasa havia sido tirada. No caso de Adão ele lhes deu folhas para encobrir suas vergonhas, no caso de Isaías ele manda um serafim lhe tocar os lábios e lhe perdoar os pecados, mas acima de tudo, sabemos que todas essas coisas eram sombras dAquele que viria retirar esse impedimento de uma vez por todas, aquele que levando sobre si a maldição do pecado nos trouxe paz com Deus (Rm. 5). O Senhor Jesus Cristo cravado naquela cruz nos dá a oportunidade de não nos achegarmos mais a Deus com medo que ele nos fulmine, mas escondidos na cruz bendita nós temos livre acesso ao trono da graça. Aleluia!
Aplicação: O problema é que nem todos foram tocados ainda. Ainda existem muitos, não sei quantos que lerão este texto, que precisam ser transformados pela graça do Senhor para poderem se achegar ao seu trono e serem chamados para sua obra. Vejamos que Isaías primeiro temeu e só depois foi tocado. A necessidade primeira de todo aquele que se achega a Deus é de saber sua real condição. Precisamos nos sentir pequenos, miseráveis e incapazes diante de um Deus tão santo. Certamente, quando estivermos humilhados e de corações contritos ele dirá o mesmo que disse a Isaías o que falaremos logo em seguida.
v.7 Imediatamente após o serafim tocar a boca de Isaías ele é alegrado com uma afirmação. O profeta está perdoado. A dívida de pecado que o assombrava até pouco tempo atrás está cancelada. Que maravilha! Quer dizer que agora está tudo resolvido, posso continuar minha vida aqui no palácio onde vivo e esperar o dia que o Senhor me levar? Não! Na verdade, não deve nem ter havido tempo para o profeta pensar nisso, pois logo em seguida ele ouve uma voz que diz:
“A quem enviarei, e quem há de ir por nós?
O chamado (v.8)
O propósito de Deus em tudo isto acaba ficando bem claro quando lemos essa pergunta. O Senhor governador dos céus e da Terra faz um questionamento que soa até mesmo curioso aos nossos ouvidos. Como um Deus soberano ainda pergunta quem quer ir realizar a sua obra? Ora, ele tem vários serafins que o servem plenamente e poderiam fazer tal obra com extrema eficácia. Então, porque será que Ele pergunta isso? A resposta está registrada em Hebreus capítulo 2 a partir do verso 5 ao 16. O pacto de obras feito com o homem no Éden e quebrado por ele próprio para ser restaurado, teria que ter a ação eficaz de um outro homem. Não sendo o homem nascido da carne capaz de restaurar essa aliança, Deus envia seu filho que tomando a forma de homem se humilha e se faz menor que o próprio homem para satisfazer as exigências do seu Pai e trazer de volta a paz e reconciliação do pacto. Assim sendo, apenas um homem é capaz de falar sobre esse pacto, a pregação fala em nome de Cristo, o pregador é o representante divino quando expõe as Escrituras, e apenas ele poderia assim fazê-lo, pois a aliança foi justamente com esse ser pecaminoso e não com os anjos.
 Ao olhos humanos, se eu estivesse no lugar do Altíssimo talvez usasse um instrumento mais confiável, mas ele resolveu fazer essa pergunta justamente para os homens, sim aqueles pecadores miseráveis que falamos em linhas anteriores, tudo isso por que o Senhor honra a aliança feita conosco.
 O que chega a ser mais curioso é que ele nem força o homem a aceitar, até porque não é necessário. Aquele mesmo Isaías temoroso de pouco tempo atrás, responde ao chamado imediatamente. Prontamente ele diz: eis-me aqui, envia-me a mim. É de se estranhar? Não, não deveria.
        Vimos que Isaías temia a Deus devido os seus pecados, mas assim que ele é surpreendido com a graça do perdão (e ainda tem gente que acha que no AT alguém era salvo por obras) imediatamente lhe sobrevém uma vontade imensa de cooperar com a obra do Senhor. Sim, assim mesmo, ele nem pensa duas vezes. Então, por que será tão difícil os crentes de envolverem na obra de Deus hoje? Já vimos que nem todos foram chamados para serem ministros da Palavra, mas certamente todos foram vocacionados para evangelizar, ou então o que fazer com aquele verso de Mateus quando Jesus diz: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...”(Mat 28) ou então aquele de Marcos 16:15 “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura”? O que falta não é chamado, mas sim resposta.
4.       A missão (v. 10-12)
Talvez muitos se animem hoje e vejam nesse chamado uma forma de conseguir ter algum tipo de sucesso na vida. Talvez, alguém se anime até mesmo a ser missionário, pastor, evangelista, presidente de alguma sociedade, pelo simples fato de achar que levando o nome de Jesus nessa empreitada acontecerá mais ou menos como aqueles comerciais sensacionalistas “seus problemas acabaram”. Podem pensar: “Lógico, Jesus me chamou para obra ele vai me dar do bom e do melhor, e tudo que eu fizer vai dar certo.” Ledo engano de quem pensa assim. Pessimismo meu? Não, veja o que o Senhor mesmo preveniu que aconteceria quando Isaías começasse seu ministério.
        Já no verso 10 imediatamente após resposta positiva de Isaías para o ministério, Deus já mostra o que lhe esperava. O Senhor manda (os verbo estão no imperativo) o profeta falar a nação pecadora e diz que à medida que ele profetizasse o povo ao invés de se converter teria seu coração endurecido. Pronto, agora acabou tudo! Como é que o Senhor quer que eu pregue e ainda me diz que não vai permitir que as pessoas se convertam? É difícil de aceitar, mas fácil de entender. A pregação da palavra de Deus segue dois caminhos. Ela salva aqueles que se convertem quando confrontados com seus pecados, e serve também como prova da culpa dos que não aceitam a sua mensagem, é justamente aqui que se encaixa aquele pecado sem perdão. A blasfêmia contra o Espírito Santo nada mais é que a rejeição de Cristo de sua obra, portanto, o Senhor designou Isaías a profetizar para que aqueles de coração duro fossem colocados no inferno por sua própria opção(cf. comentários da Bíblia de Genebra).
        Essa situação foi tão surpreendente a Isaías que ele aterrorizado pergunta até quando isso duraria (v. 11). Prontamente no verso seguinte o Senhor lhe dá a resposta. Israel será totalmente arruinado. O pecado do povo acendeu a ira de Deus e ele diz que mesmo Isaías pregando, a Sua sentença de destruição se cumpriria, como realmente se cumpriu anos depois com a invasão da Babilônia levando toda a glória de Israel embora. O povo vira escravo. O profeta continua aterrorizado quando surge uma luz no fim do túnel. No verso 13 o Senhor compara Israel com uma árvore e diz que cortará essa árvore e a despedaçará, mas Ele sabe que sempre que se corta uma árvore ainda resta um toco. Esse não se tira facilmente, e é justamente a partir desse toco que essa árvore se reerguerá. Haverá sempre um remanescente em Israel.
Aplicação: Por mais que a igreja seja infestada de pessoas que nunca tiveram uma experiência com o Senhor, por mais que elas continuem em nosso meio sendo passivas com tudo que acontece, quando não perniciosas em seus anseios, incitando contendas entre os irmãos, chegará um dia que o Senhor as arrancará do nosso meio e nesse mesmo dia restará apenas o toco. Esse toco não é outro se não a noiva do cordeiro que será adornada e florescerá novamente para seu noivo. Esse era o grande sucesso que esperava Isaías no seu ministério, por isso, não devemos nos deixar iludir por promessas de sucesso mundano nas nossas atividades designadas pelo Senhor, pois o sucesso que nos é prometido é que esse toco permanecerá e dele nascerá um nova árvore frondosa e agradável, e certamente nela os bons frutos sempre estarão presentes.

Aplicações Finais

Que possamos sempre nos alegrar com a alegria de sermos escolhidos por Deus para sua obra.
Que o Senhor nos faça tremer a cada dia diante da sua Glória, Poder e Santidade.
Que aqueles que um dia foram tocados por Ele entendam o seu chamado e atendam a Ele imediatamente, dispostos a servi-Lo sem esperar no sucesso aos moldes terrenos, mas naquilo que o Senhor mesmo já planejou para nossas vidas.
Que por fim, aqueles que ainda não o conhecem tremam diante Dele nesta noite por haverem sido apresentados diante dAquele que é três vezes Santo, que governa a Terra e os céus, e que cortará para sempre de sua presença a árvore que não lhe der bons frutos.
   
     Por: Presb. Augusto Brayner






 
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